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Então, é verão
 

Eu sempre achei que gostava do verão. Preservei minhas férias em frascos transparentes, guardei cada dia calorento, fugi do mormaço e fiquei meio tonta quando a cabeça esquentou. Tudo sem reclamar, afinal, era verão. Eu queria mais era sair da frente da lareira vermelha e brincar na areia cintilante. Eu queria fazer o que o ano todo eu fora privada, por culpa da morbidez dos dias sem sol, sem muito colorido.

E lá veio ele, a nos ameaçar. Há muito tempo já vinha, mas só é levado a sério quando sopra em ouvidos avulsos, quando dói na pele, quando arrepia a espinha, quando derruba pontes e deixa-nos sem passagem. No meio do caminho, embaixo d’água.

Pois não gosto mais do verão. Descobri, há pouco, que sou da sombra. Atravesso a rua aversiva, a mais nova portadora de Heliofobia. Coloco óculos e protetor solar. Desboto embaixo de guarda-sóis.

O fato de o sol só poder ser encarado até as 10 da manhã ou depois das 3 da tarde não me assusta mais. Não gosto mais do verão. Não me atrita a falta do astro rei, tampouco os estragos que causa quando exposto demais. Sempre vi a exposição como uma palavra feia, exposição, sabem? Um objeto a venda, que ninguém quer comprar. Um jeito feio de se mostrar. Mas ele, ele não. O sol se expôs sobre a gente, e nós, correndo, fomos parar para observar. É lei, estava na moda. Todo mundo quer.

Mas não gosto mais. E nem não é por causa da natureza sombria que brilha, ironicamente, mostrando que nunca foi fraca, com aquele sorriso maléfico que desenhávamos no interior da bola amarela, lá no jardim de infância. E nem não é pelo altíssimo risco ao câncer de pele, pelas doenças queimantes, pelo suor manchando a pele, estragando a maquiagem, borrando a suavidade, desfigurando manhãs.

Nem não é porque sei que sou culpada, porque nunca serei vítima até que queimem sobre nós. Porque sei que maltratei um bem que não era - e nem é - meu
E meus filhos, eles verão o verão? Acho mesmo que eles irão ver um borrão nas fotografias, uma memória, uma lenda a ser contada por outra espécie, que não a minha e de meus ancestrais.

Acho que é por isso. Por saber que também fui eu, quem fomos nós, por isso que não gosto mais. Nem a praia me chama mais muita atenção. E o clima não mudou, nós que mudamos, queríamos tanto mudar, que continuamos os mesmos, os mesmíssimos, e colocamos a culpa lá, jogamos para cima, para alguém pegar. E não é que pegou?

Eu quase – disse quase - recordo com exatidão, meio hermética, de ficar embaixo de raios amarelecidos uma tarde toda. Hoje se fico menos de meia hora saio com bolhas no rosto e em cima dos pés.

E quem foi que fez?

Eu, nós, vocês. A culpa é nossa e todo mundo sabe. Ninguém que saber.

E todo mundo também sabe que é mais fácil falar que não gosta mais do verão. Que quer férias das próprias férias, que quer mesmo é desengavetar logo as mantas e as luvas, colocar casacos sobre mais casacos e permanecer pálida o ano todo.

Mas ele acaba de começar.

 
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